Autor: cordelanarquista

  • [Tunísia] Anarcofeministas são presas após pichar Ministério das Mulheres


    Três anarcofeministas da organização “Ataque Feminista”, Sana Chamekh, Vladimir Leonov e Ines Zaghdoudi, foram presas no início da tarde do último domingo, 21 de julho, pelas forças de segurança tunisianas, enquanto pichavam nas paredes do Ministério das Mulheres “Abaixo o Ministério do harém do Sultão” e se preparavam para jogar bomba de tinta na fachada do prédio estatal.

    Após serem fichadas e interrogadas na delegacia policial de Charles de Gaulle, em Túnis, as três anarcofeministas foram liberadas. Segundo Leila Ben Debba, presente no ocorrido, as três ativistas foram conduzidas para o hospital depois de sofrerem violência e abuso das autoridades.

    Vladimir Leonov, uma das anarquistas presas, contou a imprensa local que elas foram agredidas e insultadas pelos policiais, inclusive ameaçadas com armas de fogo, e dois ativistas que as acompanhavam também.

    “Ataque Feminista”

    É um grupo anarcofeminista e faz parte do jovem movimento libertário tunisiano. Seu objetivo, entre outros, é espalhar as ideias libertárias para encontrar soluções radicais para os problemas sociais e políticos da Tunísia, assim como enfrentar a posição que a mulher é colocada no interior dos problemas da sociedade. O grupo busca estabelecer uma cultura de autogestão e acredita na obrigação da revolta das mulheres contra todos os tipos de exploração.

    Alguns desafios do grupo: Todos os aspectos da posição da mulher na sociedade patriarcal; Eliminar estereótipos baseados no sexo; Abolição da desumanização e objetificação da mulher; Completa eliminação da violência contra a mulher (estupro, violência doméstica, mutilação genital feminina, esterilização forçada, abuso sexual).

    Aqui o vídeo que mostra as anarcofeministas pichando a fachada do prédio do Ministério das Mulheres:


    Tradução > Malobeo

    Notícia relacionada:

    agência de notícias anarquistas-ana

    A flama brilha
    Silêncio da noite
    Fascínio da mariposa

    CassMarie
  • [Espanha] Impressões de um andaluz sobre o movimento anarquista na Grécia


    Yoquese

    Vou tentar reproduzir as impressões, frutos de uma viagem, geradas pelo contato com o movimento libertário na Grécia. Lamentavelmente não pude estar muito tempo, nem ver muitos lugares. O escrito aqui não deve ser interpretado nada além do que minha visão pessoal sobre o que vivi com os companheiros de lá, não sendo, portanto, uma análise séria sobre o movimento anarquista – e muito menos sobre a situação do país. Se a isto somarmos que a minha militância é mais orientada ao que poderia denominar-se “trabalho de base” do que à análise e a produção teórica, é certo que cometerei muitos erros. Não obstante, espero que possa dar uma ideia aproximada de alguns aspectos do movimento grego, e sirva de orientação para as pessoas interessadas e que não tenham um contato de primeira mão com ele.

    Muito do que ocorre no anarquismo na Grécia tem certa conexão com debates que ocorrem no Estado espanhol, já que, salvo as diferenças, temos muitos pontos em comum, tanto no ambiente libertário como na situação política gera l. Seria desejável acentuar os contatos e conexões entre ambos os movimentos e aos outros lugares do mediterrâneo, já que a situação econômica e política obrigam-nos a desenvolver um movimento libertário forte com base nesses pontos.

    Além da necessidade de começar a trabalhar em conjunto (e sempre dentro de uma perspectiva internacionalista, sem desmerecer a coordenação nos ambientes mais extensos no planeta), a nível local pode-se aprender muito uns com os outros, para conseguir superar os obstáculos que fazem com que hoje o movimento anarquista (em ambos os países) não consiga ser uma referência ou alternativa política a nível popular. Tudo isso em um momento em que a esquerda partidária, tanto ortodoxa como vestida com roupagens mais alternativas, não consegue articular uma resposta política à evidente regressão de direitos que estamos sofrendo – sem sonhar sequer em implementar modelos sociais de ruptura, e que, apesar da ameaça fascista se cristalizando dia a dia, consegue estabelecer suas próprias parcelas de atuação, tanto nas ruas como nos parlamentos (sobretudo na Grécia e no leste da Europa).

    Quando se chega à Grécia, a primeira coisa que chama a atenção é que a política em geral – e o anarquismo em particular – estão muito mais presentes nas ruas que em nosso país. Ao chegar, vendo a paisagem urbana, não é possível deixar de observar a grande quantidade de pichações e cartazes que enchem as paredes e os prédios. Isto se acentua nas universidades, colégios e hospitais. Estão, sobretudo as primeiras, literalmente empapeladas com todo tipo de propaganda política e mostram quase sempre algum cartaz referente a algum tema político. Voltando às ruas, além das típicas assinaturas dos grafiteiros, abundam as antifascistas e, especialmente, os “A” nos círculos. Nos edifícios públicos, como tribunais e escritórios do governo, também têm sempre alguma pichação ou manchas por ser jogada tinta contra elas, apesar de que, como me explicaram, se esforçam em mantê-los limpos. Por outro lado, a presença do fascismo do partido Aurora Dourada aparece também como forma sinistra nas paredes de algumas zonas das cidades, em forma de cruzes celtas, porém sempre riscadas.

    Essa importância da política na Grécia se confirma quando se começa a ter contato com as pessoas dali. O número de coletivos políticos, de cidades como Tessalônica ou Ioanina (nas quais estive quase todo o tempo), se multiplica por dez comparando-os à locais de tamanhos semelhantes no Estado espanhol – tanto a nível de partidos de esquerda, de vários tamanhos e tipos, como de grupos libertários, assembleias e coletivos, assim como casas ocupadas e centros sociais que servem de espaços políticos. Para citar um exemplo que me surpreendeu bastante, em Ioannina encontrei-me com uns estudantes de química, que formavam um coletivo de sua faculdade e que se reuniam em um desses centros sociais, e tratavam de questões políticas e sociais, não só referentes ao movimento estudantil. Grupos como este abundam na Grécia, onde podemos ter uma ideia da efervescência política e a quantidade e variedade de coletivos que existem.

    Isto nos leva a um aspecto importante (com seus prós e contras) dos movimentos políticos e, especialmente, dos libertários na Grécia: a juventude de seus membros. A impressão que tive destes meninos foi muito positiva, surpreendendo-me a energia e seriedade com que militam. Quando decidem convocar qualquer atividade, se empenham a fundo na hora de divulgá-la e organizá-la, especialmente no caso de ações e manifestações, e também no caso de palestras e eventos. Enquanto que, por exemplo, em grande parte do Estado espanhol uma colocação de cartazes geralmente se faz em um momento, na Grécia enchem a cidade deles, e não me refiro só a espaços em que colaboram muita gente e organizações, mas também em coletivos, sem importar seu tamanho. Esse mesmo ímpeto se pode ver nas concentrações, manifestações e piquetes. Tive a sorte de participar de vários destes últimos – correspondentes a conflitos de ESE – e me impressionou a energia desprendida, assim como a capacidade de convocação de um anarcosindicato pequeno, comparado com os do Estado espanhol. Me surpreendeu ver tantos jovens em um piquete, a forma de gritar as palavras de ordem e a atitude geral, muito ativa, durante um período de tempo prolongado para o habitual aqui.

    Em geral há muita vontade de fazer as coisas, muita energia. A impressão que tive dos gregos é que são gente de bom coração, muito nobres, trabalhadores, próximos, parecidos conosco, mas às vezes com algo diferente. São muito rebeldes, muito mais do que vemos por aqui, com uma pitada de algo inocente e idealista (note que venho de uma cidade muito dada à comédia). Têm perspectivas muito abertas em relação ao anarquismo, se nota que não sofrem o peso da história, tradição e organizações que mediatizam o libertário na Espanha. É possível que tenha a ver com o caráter das pessoas do movimento dali, a surpreendente ausência de drogas entre a juventude. Tanto o movimento como o ambiente universitário me surpreendeu, inclusive em festas as pessoas não tomavam nada diferente ao álcool e não havia ninguém vendendo. Segundo me contaram, na maioria das okupas se pegam alguém consumindo algum tipo de droga (incluindo fumar maconha) o expulsam dali. É certo que se bebe, mas não vi a presença do álcool tão constante como aqui, e quase ninguém fuma haxixe ou maconha, muito menos na rua.

    Percebi muito menos frivolidade no movimento okupa. É certo que as pessoas têm uma estética mais ou menos reconhecível, mas são mais austeros e abusa-se muito menos dos elementos decorativos (piercings, tatuagens, rastas, etc…). Não vi apenas tribos urbanas e estéticas, digamos, concretas (punks, skins, hipies…). Tampouco se via a sujeira de que se fazem ornamento em outras partes da Europa certos companheiros, tanto a nível pessoal como nos edifícios. Comparadas com as okupas daqui, a maioria das que vi estavam muito mais cuidadas e limpas (com algumas exceções), sendo evidente que as pessoas as trabalham muito mais. Em geral, nas cidades em que estive abundam ocupações tanto quanto moradias de jovens como de centros sociais, em muitos casos misturando ambas as coisas. Parece que os desalojos são muito menos frequentes (por exemplo, estive em uma okupa de Atenas que já está a 20 anos funcionando). A participação nas okupas é muito alta, traduzindo-se em uma grande quantidade de atividades, a maioria com ginásios bem equipados, palestras, concertos, grupos de teatro, bailes, supermercados ecológicos e mil coisas mais. Tenho especialmente boa recordação das que frequentei em Tessalônica (Scholeío e Orfanatrofio) e Ioannina (Antiviosi).

    Existe outra forma de manter espaços políticos, conhecidas lá como “Centros Sociais”, que consistem em locais alugados, organizados por assembleia de diferentes coletivos e com um caráter mais estável. Dentre eles, me impressionou o “Micrópoles”, em Tessalônica – um edifício gerido pelo Movimento Antiautoritário (Antieksousiastiri Kinisi). O aluguel se paga com um bar-cafeteria situado no primeiro piso, e nos superiores existem diferentes projetos cooperativos, tais como uma copiadora, um supermercado de produtos locais e provenientes do comércio justo, uma creche, uma biblioteca, uma enfermaria para animais feridos, entre outras coisas. Me surpreendeu bastante o quanto estava bem organizado, mas lamentavelmente não pude conhecer muito sobre a organização do movimento que o coordena,  mas parece uma aposta organizativa formal dentro do libertário e bastante centrada no tema da economia social e a recuperação de espaços. As referências que tive por parte de outros anarquistas foram que, em muitos casos, parece uma organização um tanto centralizada, o que têm provocado algum atrito com outros coletivos, embora lamentavelmente não tenha muita informação sobre esse tema.

    Um aspecto vital para entender o movimento anarquista grego, já destacado acima, é a falta de tradição e organizações anarquistas mais ou menos clássicas. Como disse antes, isto tem um efeito positivo, já que têm possibilitado um movimento muito jovem, aberto e de grande força e dinamismo. Diferentemente da Espanha, que têm caído no burocratismo, na rigidez e nas polêmicas absurdas que em muitos casos têm gerado o “anarquismo clássico” e suas organizações, e, por outro lado, na frivolidade e superficialidade da que, talvez como reação, peca o anarquismo mais autônomo. Mas é certo que tem seus problemas. Na Grécia, segundo me contaram, existe uma identificação, que chega ao absurdo da organização, com o autoritarismo e os partidos políticos, chegando inclusive a afetar os processos de assembleia em seus aspectos mais básicos. Em muitos casos (aqui falo por ter ouvido, porque não entendia nada nas assembleias que presenciei) o conceito de desenvolvimento de acordos da assembleia, por meio de grupos de trabalho, é desconhecido, colocando inclusive problemas na hora de recolher assinaturas ou ter responsáveis pelas tarefas. Isto se traduz em uma dificuldade na participação de pessoas com menos disponibilidade de tempo que os jovens, e dificuldade de manter estruturas organizativas complexas.

    Também existe algo que a “tradição” anarquista (em grande parte pelo anarcosindicalismo) deixou no Estado espanhol e que faz falta: a concepção do anarquismo como expressão da classe trabalhadora e as pessoas humildes em geral. Tampouco por aqui isso esteja sobrando, mas existem mais tentativas nesse sentido, ao menos em comparação com um movimento anarquista de um tamanho consideravelmente maior, como é o grego. Não existem na Grécia tantos movimentos de bairro ou lutas sociais com um caráter antiautoritário, sem ser especificamente anarquistas, como no Estado espanhol. Tudo parece muito mais politizado, não parece existir o conceito de movimentos sociais tal como temos aqui. É interessante a diferente evolução que teve o movimento das praças que começou em Sintagma sobre o 15M espanhol – tendo um caráter muito menos esquerdista o primeiro – e no qual os anarquistas em sua maioria não participaram. Isto é uma vantagem ou um inconveniente? Dada a situação política na Grécia, é possível que, por parte do anarquismo, se possa criar um movimento popular libertário sem ter que participar de movimentos sociais junto com a esquerda estadista, mas não sei se o fato de estar diretamente autodenominado como anarquista possa resultar um limite para a ação política das massas.

    Por outro lado, alguns setores anarquistas gregos (os chamados niilistas, que pelo que sei tem grande semelhança ao insurrecionalismo que esteve em voga aqui há alguns anos) ostentam um maximalismo que torna difícil se comunicar com a população e cai no mesmo erro que muitas vezes se comete também aqui: o de ter uma atitude de rejeição às “pessoas normais”. A favor deste setor do anarquismo grego, é preciso dizer que movimentam-se muito mais que por aqui, com ações de uma contundência que todos conhecemos. E, contra este caráter maximalista, os leva muitas vezes a qualificar o resto do movimento ácrata de “não anarquista”, havendo chegado inclusive a ataques contra o resto do movimento anarquista em Tessalônica que levou a uma lamentável luta de tendências.

    Há iniciativas muito interessantes como as dos companheiros do ESE, que tentam criar uma organização anarcosindicalista no complicado sistema grego (em que não há sindicatos propriamente ditos como aqui, mas sim espécies de corporações estatais, cujas eleições concorrem grupos sindicais). Como disse, me surpreendeu a energia empregadas nos piquetes, assim como as excelentes relações que têm com membros das okupas anarquistas (participando e sendo apoiado por elas). Me pareceu um grande ponto a favor, onde ser uma organização pequena e relativamente nova não suporta o peso de estruturas e, em muitos casos, folclore herdado, que sofremos no Estado espanhol. Por outro lado, manter a ideia da necessidade de organização e luta no âmbito trabalhista é, na Grécia, uma grande contribuição a um movimento que durante anos rotulou essas lutas como reformistas e contrárias ao anarquismo.

    Outra iniciativa muito interessante é a autogestão da fábrica de materiais para a construção de Vio.Me. O empresário quer fechá-la, abandonando-a; em resposta, por parte dos trabalhadores, enfrentam o desafio de continuar com a empresa de forma coletiva, apoiados por ESE, o Movimento Antiautoritário e o resto dos coletivos libertários. Atualmente buscam relançar a produção da fábrica, arrecadando o dinheiro necessário mediante a venda de produtos de limpeza, por meio de um circuito comercial cooperativo, com a perspectiva de participar em um processo de criação de uma economia social que permita uma alternativa às práticas capitalistas.

    Como se vê, existem questões semelhantes as que existem no Estado espanhol, com debates parecidos sobre como organizar-se e comunicar-se com o povo. Lamentavelmente na Grécia, apesar da potência do movimento, não vi uma grande relação com as classes populares que estão sofrendo os cortes. Falando com companheiros de Tessalônica deste tema, comentávamos que no CSOA em que estávamos havia muitíssimas atividades, mas quase todos os participantes eram jovens, em maior parte estudantes. Isto é algo que podemos extrapolar ao resto do movimento anarquista grego. À minha pergunta sobre a atividade do partido Aurora Dourada, me responderam que pelo centro da cidade não apareciam, já que está dominado em sua maior parte pelos anarquistas. Nos bairros periféricos e humildes, não sabiam com certeza qual era a situação, sendo certo que haviam aberto uma sede ao lado de uma delegacia para não serem atacados, o que dá ideia de sua debilidade na rua. Suspeitavam que estavam detrás da organização de assembleias nos bairros para protestar contra a prostituição e a imigração no bairro de um companheiro, mas não se participou dela para confirmar essa atividade. Algo semelhante me pareceu quando perguntei em Atenas: ali a presença do partido Aurora Dourada é mais forte, sobretudo nos bairros pobres, enquanto o anarquismo está em uma zona central. Isto deveria levar-nos a uma reflexão importante. No lugar em que há anos era impensável a presença de nazis na rua e a vida política, tem conseguido infiltrar-se nas instituições e começam a ter seus próprios espaços em algumas cidades. Têm sabido ver e aproveitar as frestas que lhes deixaram, manobrando habilmente, usando de forma inteligente golpes de efeitos midiáticos, conseguindo atuar na rua com um pretexto assistencialista, por exemplo mediante distribuição de comida (coisa que impossibilita um ataque direto por parte do antifascismo).

    Em geral a imagem que tenho do Aurora Dourada é por um lado menos forte do que o alarmismo criado pela mídia na Europa, mas por outro lado muito mais sinistra e perigosa – a de um movimento escorregadio e que sabidamente é difícil de parar. Deveríamos analisar isto agora enquanto é tempo. Na Grécia até agora, tem conseguido fazer frente a uma maioria esquerdista na rua, surpreendentemente, a um movimento anarquista muito mais desenvolvido e forte que o nosso, assim como um antifascismo muito sério, preparado e arrojado. Mas têm aproveitado a falta de sintonia do anarquismo e da esquerda, com grande parte da população que está sofrendo os cortes na Grécia. Muitos dos que têm sucumbido ao sistema de clientelismo do PASOK (Partido Socialista Grego) e pequenos comerciantes arruinados entram no jogo do Aurora Dourada. Se os companheiros gregos não são capazes de achar a chave, poderão enfrentar um problema muito grave nos próximos anos, já que há um refluxo (como aqui) das massas, cansadas de manifestações e mobilizações que não tem conseguido diminuir o empobrecimento e perda de direitos que sofrem. Se não se consegue construir uma alternativa para as necessidades concretas dos gregos empobrecidos – de comida, trabalho, moradia e saúde – muitos deles vão cair também na chantagem clientelista do Aurora Dourada, nutrindo-os de uma força nas ruas para enfrentar a esquerda e de um apoio nas instituições que pode dar uma volta na situação política. Creio que esta é a grande pendência dos anarquistas gregos, já que a potência do movimento não será suficiente se não articular essa alternativa popular. Nós, aqui no Estado espanhol, também temos que tomar nota disto, porque se em um país como a Grécia os nazis estão conseguindo estas coisas, aqui também podem fazê-lo, e possivelmente com mais facilidade.

    Mas creio que os companheiros gregos têm um grande potencial para sair adiante neste embate. São, como já disse antes, gente de grande qualidade militante; estão em um país em que a esquerda sempre foi forte, e sobretudo em muitos casos, expressam um grande interesse em superar o obstáculo que se tem colocado para o movimento anarquista na Grécia, apesar de todo seu vigor: a falta de organização e de conexão com as necessidades dos gregos empobrecidos. Em minha estadia, os debates que mantivemos após umas palestras sobre o movimento pela moradia digna e a ocupação de terras em Andaluzia foram muito interessantes, e me permitiram ver que as pessoas estão refletindo muito sobre essas questões e são conscientes do que está ocorrendo com o auge do fascismo e os cortes por parte do governo. Ao final, as questões e os debates são parecidos com os que temos aqui, ainda que talvez contemos com diferentes recursos na hora de enfrentá-los. Que podemos concluir de tudo isto? Em minha opinião, que para construir um movimento libertário forte e que seja uma verdadeira expressão da luta popular, é imprescindível compararmos experiências, estabelecer vínculos, ver-nos, falar-nos, compreendermo-nos, e, com o tempo, lutarmos juntos, aqui, na Grécia e no resto do mundo. É preciso proceder com calma, escrever com boa letra, mas não podemos dormir. Todo o tempo que perdemos e as oportunidades que desperdiçamos são aproveitadas pelo sistema, tanto em sua vertente “democrática” na hora de fazer-nos retroceder nos direitos que custará muito recuperar, como na vertente fascista, que se prepara como alternativa para o caso de que a instabilidade gerada pela crise a faça útil para os capitalistas.

    Tradução > Sol de Abril

    agência de notícias anarquistas-ana

    Tarde de inverno
    O por-do sol sumiu
    em meio a poeira

    Antonio Malta Mitori
  • [Ucrânia] Ação Direta: Dois golfinhos são libertados do golfinário de Yevpatoria


    Comunicado:

    Dois golfinhos foram libertos do golfinário de Yevpatoria [cidade turística na Crimeia] como resultado de uma operação especial com equipamento de mergulho. Durante a noite de lua cheia do dia 20 de julho de 2013 nós percorremos 2 km debaixo de água e violamos o perímetro de segurança: Cortamos as redes e entramos nas piscinas de contenção dos golfinhos.

    Na hora seguinte cortamos uma grande parte da barreira de perímetro. Os golfinhos incentivaram os nossos esforços com cliques e assobios. Seu apoio nos encheu de alegria e emoção.

    Este foi um encontro inesquecível e uma experiência encorajadora para nós. Com nosso trabalho feito, deixamos a área de operação. Aliás, a prisão estava equipada com câmeras de visão noturna, mas os seus olhos vermelhos eram virados para as passarelas e para a plateia. Ninguém esperava que a nossa abordagem fosse por baixo. Assim que os golfinhos receberam o vento da liberdade e o mar aberto, escaparam para o mar noturno.

    Frente de Libertação Animal (FLA) – Federação Anarquista Informal (FAI)

    Seals on tour

    Tradução > Caróu

    agência de notícias anarquistas-ana

    Suave impressão de asas
    abrindo em tempo-semente
    e pausa suspiro

    Nazareth Bizutti

  • Enésima cara lavada do fascismo espanhol


    Em 6 de junho passado foi assassinado no centro de Paris o jovem Clément Méric, militante francês da esquerdista União Sindical Solidária (“Solidaires”). O jovem de 18 anos se encontrava com um grupo de amigos quando foi violentamente agredido com soqueiras pelos cabeças ocas das JNR [Juventude Nacionalista Revolucionária], provocando imediatamente sua morte cerebral. Acontece que neste assassinato fascista o principal agressor e suspeito é um neonazi espanhol de 20 anos, nascido em Cádiz e que atualmente trabalha como segurança.

    A morte de Clément reproduz alguns parâmetros que já se deram no assassinato de Carlos Palomino por um soldado profissional, ou de vários antifascistas russos por paramilitares daquele país, sendo os carrascos em todos estes casos os chamados “corpos de segurança”,  sejam privados ou estatais.

    O assassinato de Clément na França não se circunscreve como um fato isolado, nem como uma briga juvenil, senão que é o resultado da escalada que a extrema-direita daquele país vem registrando nos últimos anos, depois que o anterior governo potencializou sua tendência anti-imigração para conseguir currais eleitorais e da parcimônia e conivência do atual governo com estes grupos que se multiplicam agora, ao calor das exibições homofóbicas.

    Definitivamente, este assassinato nazi volta a ser o desenlace previsível do que têm provocado os governantes e mostra uma vez mais os laços entre poder, violência e fascismo, tudo faces da mesma moeda: o capitalismo.

    Não tem nada novo até aqui, ademais, evidentemente, da tristeza e raiva de um assassinato destas características. Mas, enquanto isso, o que acontece na Espanha?

    Pois na Espanha o nazismo se desenvolve e junta forças transformando-se em um amálgama de associações que, sob sua declaração de “apolítico”, estão conseguindo invadir boa parte dos espaços sociais: cultura, esporte, etc. A partir da imagem rançosa de seus antecessores pós-franquistas dos anos 80 e dos métodos e táticas dos nacional-socialistas “autônomos” dos anos 90, estes grupos têm aberto uma brecha pela qual estão se adaptando com muita facilidade. Escondendo em sua propaganda de “primeiro escalão”, qualquer referência ou símbolo nazifascista, estão se aproximando de ambientes contestatórios sem que seja detectada de forma clara a mensagem subjacente em torno de toda sua retórica linguística.

    A partir desse caminho de ambiguidade, têm conseguido inclusive apoderar-se de lemas e parafernálias outrora anticapitalistas (“dissidência”, “inconformismo”, “alternativa rebelde”,…) de maneira que conseguem se vincular não só com seus adeptos, mas também com certa sociedade desencantada e indignada que acaba seduzida por um discurso tíbio, correto, mas chamativo. E neste percurso do nacional-socialismo espanhol estamos vendo concertos de cantores, torneios de futebol, jornadas “culturais” em espaços municipais, passeios de motos, leituras públicas de livros ou excursões dominicais.

    Assim, aparecem como flechas, grupos organizados do estilo de “Resposta Estudantil”, “Liga Jovem”, “Libertas”, “Associação Cultural Alfonso I”, “Omnium Cultural”, “Alternativa Europeia”, ou “Nova Época”, que em muitas ocasiões dispõem na retaguarda de uma infraestrutura política (MSR, Democracia Nacional, etc.) e que recebem ainda apoio e patrocínio das instituições para desenvolver suas atividades. Mas atrás desta imagem pseudo intelectual e cautelosa, se encontra a mensagem nacional-socialista de sempre, nem uma vírgula a mais nem uma vírgula a menos: racismo, imperialismo, homofobia, violência contra os anticapitalistas, misoginia…

    Os anarcosindicalistas enfrentam este problema desmascarando a todos estes grupos, assinalando-os e denunciando todas e cada uma de suas atividades. Ante uma implantação que está se tornando escandalosa e ante a estranha e incômoda conivência de alguns setores que considerávamos contrários ao fascismo e as violências, olhamos de frente o problema. Não deve haver nem um município, nem um hotel, nem uma sala de concertos ou discoteca, que albergue um ato nazi, sem nosso alerta, nosso rechaço e nosso boicote.

    Acabar com o capitalismo e sua crueldade passa por atacar todos os seus tentáculos, todas as suas formas e todas as suas mostras, e na linha de frente estão os trabalhadores e trabalhadoras.

    Seção de Telecomunicações e Serviços Informáticos da CNT-AIT de Madri

    Tradução > Sol de Abril

    Notícia relacionada:

    agência de notícias anarquistas-ana

    Lua crescente.
    Onde está a outra parte?
    Derramou no mar.

    Rafael Medeiros
  • [EUA] Anunciando a Turnê Anarquista de Abolição Penal


    O Teatro Insurgente (produtores de peças anarquistas e sobre abolicionismo penal como em “Belly and Ulysses’Crewmen”) está anunciando uma turnê de sua nova peça: Todos os Policiais são Bastardos, em conjunto com um novo documentário sobre a Rebelião de Lucasville: A Sombra de Lucasville.

    Membros do Teatro Insurgente tem trabalhado com a organização “RedBird Prison Abolition” desde sua criação, focados particularmente em apoiar os esforços da Rebelião dos Prisioneiros de Lucasville e Sean Swain. Essa nova turnê irá arrecadar verba e suporte a todos estes projetos.

    ACAB é uma peça de 90 minutos que examina as profundezas da psicologia policial, a história da aplicação da lei nos Estados Unidos, novas tendências de policiamento e formas de resistência contra a polícia e contra as prisões.

    A Sombra de Lucasville é um documentário de 60 minutos realizado por D. Jones acerca da rebelião carcerária de 1993 na Instalação Correcional do Sul de Ohio em Lucasville. Prisioneiros que estão no corredor da morte como resultado de acusações falsas, na base da rebelião, irão contatar o evento para responder a questões sobre suas experiências.

    Organizações locais e advogados prisionais serão encorajados a participarem dos eventos e construir uma organização na direção de uma rede mais forte de anarquistas contra as prisões e contra a polícia. Esta turnê é em grande parte inspirada dos telefonemas frequentes recebidos dos então encarcerados anarquistas Lorenzo Komboa Ervin  e Memphis Autonomia Negra para anarquistas brancos para atualizar nossa análise e alterar nosso apoio: de uma pequena lista de prisioneiros políticos para uma atenção ampliada ao encarceramento em massa.

    A primeira turnê irá de Columbus, Ohio, para Machias Maine entre os dias 7 e 25 de agosto, mas oTeatro Insurgente está pronto para levar estes projetos em qualquer lugar, por todos os lados, nos próximos 6-9 meses. Se você gostaria de agendar uma peça em sua cidade, entre em contato com Ben no e-mail insurgent.ben@gmail.com.

    Do Teatro Insurgente


    Tradução > Malobeo

    agência de notícias anarquistas-ana

    Árvore curvada
    tentando catar folhinhas
    caídas no chão

    Lena Jesus Ponte
  • [EUA] A entrevista de Mumia Abu-Jamal que tentaram esconder


    [No último dia 5 de junho, após Mumia Abu-Jamal conceder uma entrevista telefônica ao programa radiofônico do advogado Michael Coard chamado “Radio Courtroom” (Tribunal na Rádio), o Departamento de Correções (DOC) estadunidense proibiu as chamadas telefônicas para ele como castigo. E somente em 13 de julho, depois de uma campanha popular de pressão, Mumia voltou a receber ligações e participar do programa de rádio do advogado Michael Coard. E, finalmente, depois de um ano e meio, o DOC aprovou as visitas normais do filho de Mumia, Jamal Hart, que poderá também levar o seu filho e neta de um ano para visitar Mumia. Pois é, Mumia é bisavô! A seguir, a transcrição da entrevista de Mumia que tentaram esconder. Mumia livre já!]

    Michael Coard > Hoje é um dia absolutamente histórico. É a estreia do Radio Prison Showapresentado por Mumia Abu-Jamal e co-apresentado por seu advogado Michael Coard, do programa Radio Courtroom em 900AM-WURD. Estaremos em contato com Mumia Abu-Jamal periodicamente. Mumia o pai. Mumia o esposo. Mumia o jornalista. Mumia o autor. Mumia o revolucionário. E Mumia preso temporário. Antes de qualquer coisa, Mumia, como se sente hoje?

    Mumia Abu-Jamal < Muito bem. Obrigado por perguntar.

    Michael > E te pergunto sinceramente. Falo por parte da comunidade e estamos preocupados por sua situação, seu bem estar. Mas este é seu programa, Mumia. Pode improvisar. Eu nada mais vou fazer que lançar umas poucas perguntas e espero que o leve aonde quiser. Primeiro gostaria que repartisse com os ouvintes o que é o trabalho rotineiro ou a brutalidade cotidiana que ocorre na prisão. Coloquemos os ouvintes em seus sapatos. Conte-nos de um dia seu e de qualquer outra coisa que queira acrescentar.

    Mumia < Pois, se eu pudesse modificar um pouquinho a pergunta…

    Michael > Sim, por favor.

    Mumia < Falaria do dia de uma pessoa típica, porque acredito que de muitas maneiras, minha realidade não é igual. Eu trabalho todos os dias. Leio muito diariamente. Passo muito tempo estudando. Não estou dizendo que não existem outras pessoas que não fazem o mesmo. Sim, existem. Há homens que me superam nisto, mas não acredito que seja um acontecimento raro, notável ou desconhecido que muitas pessoas que não vão bem na escola se graduam no sistema industrial carcerário, ou como dizemos, o complexo industrial carcerário. E aqui estão mal equipados para estudar porque têm dificuldades para ler, escrever, compreender. Muitos homens são analfabetos. Por isso, seu dia consiste em trabalho monótono e pesado. Trabalho árduo. Porque há poucas opções para alguém que deseja obter educação.

    Desgraçadamente, como mencionei, estar aqui é uma espécie de graduação. Existem aqueles que leem e estudam se encontram possibilidade, e pela primeira vez em sua vida aprendem coisas fora do ambiente escolar que deveriam ter aprendido muitos anos antes. Mas para a maioria, desgraçadamente, há só oportunidades perdidas devido às ações do senhor que alguns chamamos entre risadas “o primeiro presidente negro” (risos). Falo de William Jefferson Clinton. Fez muitos cortes em bolsas de estudo e outras oportunidades educativas. A lógica do ex-presidente era que estas coisas não estavam disponíveis a pessoas no “mundo livre” e por isso, não deveriam estar disponíveis aos presos. É uma visão invertida do mundo.

    Na verdade, estes programas devem estar disponíveis a todas as pessoas nos Estados Unidos. Mas como bem sabe, sendo advogado, não há tal coisa como um direito constitucional a educação. Por isso temos milhões de pessoas que não podem desenvolver-se, não podem aprender. E essa é a experiência de muitos homens neste tipo de situação.

    Michael > Mumia, me agrada que tenha modificado minha pergunta, e antes de chegar à segunda, me permita te perguntar sobre o que disse ao modificá-la. Mumia, por que e como é tão desinteressado? Por que pensa sempre na situação de outros e nunca fala das injustiças que fizeram a você pessoalmente?

    Mumia < Pois, eu não diria nunca, diria raras vezes (risos). A verdade é que [interrupção]… Falemos desta prisão onde estou, por exemplo. Aqui tem cerca de 2.200 homens. Tem 51.000 no estado da Pensilvânia. Se checasse os 50 estados e Porto Rico, encontraria 2.5 milhões de pessoas, quase a maioria dos quais são pessoas afro-americanas. Por isso, não podemos ignorar o que, e o que seria para qualquer comunidade uma imensa catástrofe.

    Michelle Alexander escreveu um aclamado livro intitulado “O Novo Jim Crow¹”, no qual faz algumas observações arrepiantes muito fundamentais. Por exemplo, diz que o número de homens negros na prisão nos Estados Unidos hoje em dia supera o número de pessoas mantidas em regime de escravidão em 1855 justamente antes da Guerra Civil. Também diz que o número atual de homens negros, e mulheres negras também, nas prisões dos Estados Unidos supera o número de encarcerados na África do Sul durante o regime de apartheid em seu apogeu. Lá pessoas negras em todas as partes do país, incluindo líderes, legisladores, acadêmicos e ativistas protestavam contra a feiura do regime de apartheid. Pois nós já ultrapassamos essa feia realidade, mas a camuflamos com um presidente negro, prefeitos negros, diretores e comissários carcerários negros. E o efeito em nossa comunidade é profundo. 

    Então quando falo de tudo isto é porque não se comenta o suficiente. O faço porque a realidade é óbvia todos os dias. Se mais pessoas falassem disto, eu não teria que dizer uma só palavra, não? (risos)

    Michael > Bem dito. Queremos escutar mais sobre isto. Me deixe te fazer outra pergunta: Quanta fé tem, se é que tem, no sistema legal?

    Mumia < Bem, acredito que a fé é para amantes ou sacerdotes, digo gente religiosa. Não acredito que a lei seja um lugar para o amor ou a religião. Durante muitos anos tenho dito que não tenho nenhuma fé, nenhuma confiança no sistema. Nenhuma. E o sistema tem mostrado que tenho razão.

    É interessante que me pergunte isto agora mesmo. Estou escrevendo um livro junto com o cineasta Steve Vittoria, e por isso estou investigando a Suprema Corte. Tenho lido uns quatro livros sobre o tema dentro das últimas três semanas. E quanto mais leio, menos motivo tenho para ter fé nesta instituição tão apregoada. O que os juízes tem feito é apoiar todo tipo de repressão jamais conhecida pela humanidade.

    Michael > Sim, concordo.

    Mumia < Ou quando não o fazem, quando criticaram ou expressaram oposição ao injusto, ou o declararam inconstitucional, o que passa no mundo real é muito diferente do que encontramos em suas opiniões.

    Michael > Sim, sim.

    Mumia < Houve um caso decidido em meados de 1880, onde determinaram que o confinamento em solitária (o isolamento prolongado em uma cela) era inconstitucional, que era um castigo cruel e incomum. Imagina! Seria assombroso obter uma decisão como aquela hoje em dia, quando existe muito mais gente confinada em solitárias por um fator ao redor de 1.000. 

    Pelo menos 25.000 pessoas vivem em isolamento quase total em todas as partes do país nas prisões de controle em cada estado e no sistema federal. Estamos falando de manter aos homens sós em uma cela, muitas vezes com nada, não durante dias ou meses, mas durante anos e décadas.
    Sob a lei internacional, isto normalmente se chama “tortura”, porque somos animais sociais, criaturas sociais a quem nos faz falta a interação social com outras pessoas.

    Então ter fé na lei seria uma loucura.

    Michael > Bem dito. E me permita seguir com outra pergunta. Se as pessoas razoáveis já não tem fé ou confiança no sistema, que fazemos quando há uma injustiça descarada? Que fazemos a respeito do complexo industrial carcerário? E suponho que a pergunta mais ampla é buscamos reforma ou buscamos revolução? Como se promove uma mudança se não trabalhamos desde dentro, usando o sistema, usando a lei?

    Mumia < Pois eu considero de uma maneira um pouco diferente e te direi o porquê. Antes mencionei a Michelle Alexander. E tem um motivo para retomar o que disse. Em seu livro “O Novo Jim Crow”, ela diz que dada a magnitude do complexo industrial carcerário hoje em dia, nada menos que um movimento massivo começará a sacudir esse baluarte de repressão. É o que impactou o sistema original de segregação racial denominado “Jim Crow” e faz falta o mesmo agora. Se as pessoas decidirem… Não diz na Declaração de Independência que as pessoas tem direito de mudar ou abolir seu governo?

    Michael > Sim senhor, sim senhor.

    Mumia < É algo que as pessoas têm que decidir. E diz respeito aos que chamamos ativistas, ou radicais, ou revolucionários, fazer este chamado. Cabe a eles organizar as pessoas, levantar um movimento [interrupção], um movimento dirigido a esta grande injustiça social de nossos tempos.

    Michael > Mumia, falas desta grande injustiça social de nossos tempos. Se tivesse que classificar as grandes injustiças atuais, se sentiria a vontade dizendo, está é mais grave, esta é a segunda? Qual considera a mais flagrante, se é que tem uma mais flagrante? Seria o complexo industrial carcerário? Seria outra coisa? Haverá um monte? Você, o que diria?

    Mumia < Para que haja claridade, evitaria falar de um monte, ainda que talvez um monte de injustiças venham a mente. (risos) Para simplificar, e para explicar claramente a necessidade de organizar um movimento, diria que não é uma coincidência que na cidade da Filadélfia estão fechando 27 escolas, principalmente na comunidade negra. Em Chicago, estão fechando 54 escolas. Poderíamos falar do mesmo no Harlem ou em Rochester ou em Detroit – em cidades por todas as partes da nação negra. A educação é a porta, ou me permita reformular isso – a falta de educação é a porta para o complexo industrial carcerário.

    E por que acha que estão fechando escolas principalmente na comunidade negra? Porque têm planos para que todos os jovens de toda uma geração migrem para as ruas e logo depois para as prisões onde podem os explorar economicamente. Milhões de dólares que se devem gastar nas comunidades negras da Filadélfia Norte, Filadélfia Oeste e Germantown irão para os povos carcerários de Waynesburg ou até aqui em Mahanoy. Porque o censo conta as pessoas. [interrupção]. Então o dinheiro recolhido dos impostos que se devem gastar em transportes, educação e saúde se gasta nesta parte do estado onde agora há mais gente (encarcerada). E Filadélfia Norte, Filadélfia Oeste e Germantown perdem cada vez mais. A educação e o complexo industrial carcerário estão relacionados. São parte da mesma coisa.

    Michael > Mumia, recebemos o aviso de que só temos mais 60 segundos nesta chamada. Não deixe de falar, por favor. Queremos escutar suas sábias palavras. Só quero te perguntar mais uma coisa. Como mantém sua agilidade mental, seu senso de humor? Estou te disparando perguntas e suas respostas são rápidas e às vezes divertidíssimas. Como o faz?

    Mumia < Leio muito. Estudo muito. Tornou-se um hábito que não posso deixar. Tem que estar preparado quando uma oportunidade se apresenta, como é o caso agora. Obrigado, meu irmão. Foram grandiosos esses 15 minutos.

    Michael > Obrigado a você, Mumia, e vamos seguir com isto. Muitíssimo obrigado por seu tempo. Diria “fique firme”, mas sei que de todo modo já vai o fazer.

    [1] Jim Crow. O nome do sistema de segregação racial tomado de um personagem em espetáculos de música e dança que apresentavam estereótipos raciais protagonizados por atores brancos com o rosto maquiado de negro.

    A Rádio Prision Show com Mumia Abu-Jamal e Michael Coard é transmitida toda a primeira quarta-feira de cada mês, às 12hs (horário estadunidense) como um segmento da Rádio Courtroom em 900AM-WURD, na Filadélfia.

    Assine uma petição para exigir sua libertação imediata:


    Escreva uma carta a Mumia:

    Mumia Abu-Jamal #AM8335
    SCI Mahanoy
    301 Morea Road
    Frackville, PA 17932
    EUA

    Infos sobre o caso Mumia, em português:


    Tradução > Caróu

    agência de notícias anarquistas-ana

    Flores azuis
    no fundo de águas rasas.
    Dama-do-lago.

    Gladston Salles

  • [Grécia] Em Exarchia, brutamontes da polícia dão início a motim atacando pessoas com garrafas de vidro, foguetes e bombas de efeito moral


    No sábado, dia 20 de julho, os brutamontes da polícia motorizada Delta entraram em Exarchia, uma das regiões mais vibrantes de Atenas, enquanto centenas de pessoas participavam de dois diferentes eventos de solidariedade ao anarquista Kostas Sakkas, que esteve em greve de fome por 38 dias porque foi preso por 31 meses sem julgamento pela auto-proclamada “democracia” grega.

    Como retrata o vídeo (link abaixo), os brutamontes da polícia Delta em suas motos começam a intimidar e perseguir transeuntes por razão alguma; então que as pessoas se reúnem em reação às táticas terroristas da polícia, recebendo como resposta dos policiais bombas de efeito moral, granadas de gás asfixiante, foguetes e mesmo garrafas de vidro vazias!

    Centenas de pessoas se reuniram no local para persegui-los e começaram a cercá-los, enquanto os residentes, de suas sacadas, jogavam água contra os brutamontes policiais para forçá-los a ir embora, seguindo a destruição que causaram.

    Confrontados por tantas pessoas, os brutamontes da polícia Delta, em conjunto com a polícia antidistúrbios chamada para dar assistência, foram logo forçados a recuar e deixar a área.

    Vídeo:


    Tradução > Malobeo

    Notícia relacionada:

    agência de notícias anarquistas-ana

    Canta alegre o sabiá
    faz folia o bem-te-vi
    — natureza assovia

    Rogério Viana
  • [Grécia] Kalamata: manifestação antifascista e proibição de celebração de um festival neonazista


    Há poucos dias, autoridades municipais de Messinia (província de Kalamata) revogaram a autorização que anteriormente haviam concedido ao partido neonazista Aurora Dourada para que realizasse um festival de 2 a 5 de agosto na cidade de Kalamata, no sul de Peloponeso. Este festival seria comemorativo ao golpe de Estado que o militar Metaxas realizou em 4 de agosto de 1936, pelo qual impôs uma ditadura fascista até 1940. Os neonazistas iriam celebrar este festival no mesmo lugar onde, em 1934, a polícia e o exército mataram seis trabalhadores portuários durante uma greve.

    A autorização concedida ao partido Aurora Dourada para realizar esta festa fascista em Kalamata tinha provocado protestos de várias organizações e associações profissionais, sindicatos e partidos políticos, autoridades portuárias e da Câmara Municipal. Não que todos de uma só vez tenham se sensibilizado e se oposto ao fascismo. Eles não querem a celebração do festival fascista em benefício do “bom funcionamento da cidade” e “devido aos efeitos negativos que, em alta temporada, teria sobre a vida econômica e social de Kalamata”. Em outras palavras, o tema para todos estes é puramente econômico. Eles se opuseram a celebração do festival fascista porque estimaram que a sua promoção seria uma queda em seus lucros. Não se esqueçamos de que a província de Messinia é um dos baluartes da direita e que nesta província nas últimas eleições gerais o partido Aurora Dourada teve uma das porcentagens mais elevadas.

    Em 20 de julho, cerca de 2.000 antifascistas de Messinia e províncias vizinhas realizaram uma manifestação antifascista no centro de Kalamata. A passeata foi particularmente combativa. Percorreu todo o centro da cidade e durou aproximadamente duas horas. A marcha incluiu anarquistas, antiautoritários, esquerdistas e em geral antifascistas de todas as idades.

    Durante a concentração e a passeata antifascista, cerca de 50 neonazistas foram fechados em sua sede partidária, enquanto ela estava cercada e vigiada por vários esquadrões de polícia. A massividade da manifestação não permitiu que os fascistas promovessem qualquer provocação contra ela. As baboseiras fascistas se limitaram a uma chamada telefônica de ameaça. Na quarta-feira, 17 de julho, uma pessoa que se apresentou como deputado do partido Aurora Dourada na província de Kalamata-Messinia ligou para o celular da Assembleia Antifascista de Atenas, que participou da manifestação, ameaçando os membros da Assembleia.

    Vídeo:

    agência de notícias anarquistas-ana

    a chuva cai forte
    e os ruídos que sobem
    corroem meus olvidos

    Thiago de Melo Barbosa
  • Anarquistas Palestinos em Conversação: Recalibrando o anarquismo em um país colonizado


    Por Joshua Stephens

    “Honestamente, ainda estou tentando desencanar dos hábitos nacionalistas”, brinca o ativista Ahmad Nimer, enquanto conversamos do lado de fora do café Ramallah. O assunto da nossa conversa parece improvável: viver em uma Palestina anarquista. “Em um país colonizado, é um tanto difícil convencer as pessoas de uma solução não autoritária e não estatal. Você encontra, no geral, uma mentalidade – frequentemente próxima do nacionalismo – estritamente anticolonial”, lamenta Nimer. De fato, anarquistas na Palestina atualmente tem um problema de visibilidade. Apesar do destaque da atividade anarquista internacional e israelense, não parece haver uma percepção correspondente do anarquismo entre os próprios Palestinos.

    “A discussão contemporânea sobre temáticas anarquistas desloca sua ênfase na direção de algo como uma aproximação do poder: rejeitar o poder de cima, a favor do empoderamente. Quando você fala sobre anarquismo enquanto um conceito político, é definido como rejeição ao Estado”, explica Saed Abu-Hijleh, um professor de geografia humana na Universidade An-Najah, em Nablus. “Fala sobre liberdade e auto-organização da sociedade sem a interferência do Estado”. Mas como pessoas sem Estado se engajam com o anarquismo, um termo que implica oposição à forma do Estado enquanto condição de sua existência?

    Na Palestina, elementos da luta popular amiúde se auto-organizaram historicamente. Mesmo não havendo identificação explícita enquanto “anarquismo”. “As pessoas já realizavam organizações horizontais, ou não hierárquicas por todas as suas vidas”, disse Beesan Ramadan, outra anarquista local, que descreve o anarquismo enquanto “tática”, apesar de questionar a necessidade de um rótulo. Ela continua, “Já está na minha cultura e no próprio modo através do qual o ativismo Palestino funciona e funcionou. Durante a Primeira Intifada, por exemplo, quando a casa de alguém era demolida, as pessoas se organizavam para reconstruí-la, quase espontaneamente. Enquanto uma Palestina anarquista, procuro retornar às raízes da Primeira Intifada. Não veio de uma decisão política. Veio contra a vontade da OLP (Organização para a Libertação da Palestina”. Yasser Arafat declarou independência em Novembro de 1988, após a Primeira Intifada ter começado em Dezembro de 1987″, diz Ramadan, continuando “…para sabotar os esforços da Primeira Intifada”.

    O caso Palestino aprofundou suas complicações nas décadas recentes. O panorama de uma auto-organização preponderantemente horizontal na Primeira Intifada, foi substituída em 1993 com a assinatura dos Acordos de Oslo e a criação de cima para baixo da Autoridade Palestina (AP) que criaram. “Agora, aqui na Palestina”, observa Ramadan, “nós não temos o significado de autoridade que outras pessoas desafiam… Nós temos a AP e a ocupação, e nossas prioridades são sempre confusas. A AP e os Israelenses [estão no] mesmo patamar porque a AP é uma ferramenta para Israelenses oprimirem Palestinos”. Nimer também compartilha sua perspectiva, argumentando que agora, a AP se expandiu muito mais amplamente, e que muitos agora a observam como uma “proxy-occupation”.

     “Ser um anarquista não significa carregar uma bandeira rubro-negra ou participar do Black Bloc”, ressalta Ramadan, se referindo às táticas anarquistas de protestos estabelecidas, de vestir roupas negras e cobrir a o rosto. “Eu não quero imitar nenhum grupo ocidental no modo que “fazem” o anarquismo… não vai funcionar aqui, porque você precisa criar uma nova consciência nas pessoas, e elas não entendem este conceito”. Entretanto, Ramadan acredita que a baixa visibilidade dos anarquistas Palestinos, e a falta de consciência sobre o anarquismo entre Palestinos de maneira mais ampla, não necessariamente significa que existem poucos. “Eu acho que existe um bom número de anarquistas na Palestina”, ela percebe, apesar de admitir mais tarde, “… mas, por agora, é uma opinião individual, apesar de estarmos todos ativos em nossos próprios meios”.

    Esta falta de um movimento anarquista unificado na Palestina pode ser resultante do fato de os anarquistas Ocidentais nunca terem realmente focado no colonialismo. “[Escritores ocidentais] não tiveram essa necessidade”, argumenta Budour Hassan, um ativista e estudante de direito. “A luta deles era diferente”. Nimer também acrescenta: “Para um anarquista nos Estados Unidos, a descolonização pode fazer parte de uma luta antiautoritária; para mim, é simplesmente o que precisa acontecer”.

    Significativamente, Hassan amplia sua própria compreensão do anarquismo além das posições que se colocam meramente contra o Estado ou o autoritarismo colonial. Ela se refere ao romancista Palestino e nacionalista Árabe Ghassan Kanafani, percebendo que apesar de ter desafiado a ocupação, “…ele também desafiou as relações patriarcais e a burguesia… é por isso que eu penso que Árabes – anarquistas Palestinos, do Egito, da Síria, de Bahrain – precisam começar a reformular o anarquismo de um modo que possa refletir nossas experiências de colonialismo, nossas experiências enquanto mulheres em uma sociedade patriarcal, e assim por diante”.

    “Apenas fazer parte de uma oposição política não irá salvar você”, adverte Ramadan, acrescentando que para muitas mulheres, “Quando você se levanta contra a ocupação, também precisa se levantar contra a família”. De fato, a superênfase de retratos de mulheres nos protestos, ela continua, mascara o fato de que na realidade, muitas mulheres precisam lutar só para estarem lá. Mesmo comparecer em reuniões vespertinas requer das mulheres jovens uma superação das limitações sociais não enfrentadas, em contrapartida, pelos homens.

    “Enquanto Palestinos, temos que estabelecer uma conexão com os anarquistas Árabes”, diz Ramadan, influenciada pela sua leitura do material proveniente de anarquistas no Egito e na Síria. “Nós também temos muito em comum e, em função do isolamento, acabamos encontrando anarquistas internacionais que às vezes, por mais que sua política seja boa, permanece presa em suas ideias errôneas e Islamofobia”.

    Em um pequeno trecho publicado na Jadaliyya (revista online) intitulado “Esclarecimentos Anarquistas, Liberais, e Autoritários: Notas da Primavera Árabe”, Mohammed Bamyeh argumenta que as recentes insurreições Árabes refletem “…uma rara combinação de métodos anarquistas e intenções liberais”, notando que “…o estilo revolucionário é anarquista, no sentido de que necessita pouca organização, liderança, ou mesmo coordenação, [e] tende a desconfiar de partidos e hierarquias mesmo após o sucesso da revolução”.

    Para Ramadan, o nacionalismo também representa um problema significante. “As pessoas precisam do nacionalismo em tempos de luta”, ela admite, “[Mas] às vezes se torna um obstáculo… Você sabe o que sentido negativo do nacionalismo significa? Significa que você só pensa enquanto Palestino, que os Palestinos são os únicos que sofrem no mundo”. Nimer também acrescenta, “Estamos falando sobre sessenta anos de ocupação e limpeza étnica, e sessenta anos de resistência através do nacionalismo. Isso é muito longo, não é saudável. As pessoas podem ir do nacionalismo ao fascismo muito rapidamente”.

    As multidões de Dezembro no Cairo, na praça Tahrir, podem ainda oferecer esperança para os Palestinos anarquistas. Enquanto o presidente Mohamed Morsi consolida poderes executivos, legislativos e judiciais em seu escritório, grupos anarquistas se juntam às manifestações. Estes Egípcios atualmente chamam a si próprios de anarquistas e abraçam o anarquismo enquanto tradição política. De volta à Ramallah, Nimer reflete: “Frequentemente, sou pessimista, mas você não pode descontar nos Palestinos. Podemos irromper a qualquer momento. A Primeira Intifada começou com um acidente de carro”.

    Este artigo apareceu originalmente na edição de Fevereiro da revista Libanesa “O Posto Avançado”.

    Tradução > Malobeo

    agência de notícias anarquistas-ana

    no canto da janela
    nova linha do horizonte:
    o fio da aranha.

    Tânia Diniz
  • [Chile] Documentário “Montagem: Caso Bombas”


    Através de vários testemunhos, o documentário “Montagem: Caso Bombas” constrói um sólido relato que conta de forma crítica e didática as várias situações e eventos relacionados com o conhecido “Caso Bombas”, montagem política-policial contra vários grupos e indivíduos que professavam a ideologia anarquista na região chilena.

    Basicamente, chamado pela grande imprensa chilena como “Caso Bombas”, é um fato “político-midiático”, que tem a sua localização na cidade de Santiago, região do Chile, que consistia em uma complexa trama de eventos que procuraram criminalizar o movimento anarquista desta região do planeta, assim como continuar a doutrina do “inimigo interno”, ideia que o Estado chileno vem desenvolvendo historicamente. Na construção dessa situação estiveram profundamente envolvidos os meios de comunicação hegemônicos, que foram transformados em uma parte estratégica a serviço dos interesses do Estado. Essa atitude da mídia é muito semelhante à que ocorre diariamente contra a causa Mapuche, onde Estado e imprensa burguesa associam-se para proteger os interesses de grandes empresas capitalistas de silvicultura, mineração e energia no território ancestral Mapuche. O polêmico “Caso Bombas” se desenvolveu entre os anos de 2009-2012, a partir da morte de Mauricio Morales – passando pela detenção e prisão de vários companheiros – até a absolvição final e a liberdade concedida a eles.

    O documentário começa narrando o caso particular relacionado com a morte do anarquista Mauricio Morales, fato que marca o início de toda a orquestração midiática-repressiva do Estado chileno contra o movimento anarquista em geral. Através da voz de diferentes entrevistados – incluindo historiadores, advogados, réus no caso e habitantes de casas invadidas – reconstrói a história do que aconteceu.

    Deve-se ressaltar que o documentário não trata da análise específica do “Caso Bombas”, mas tenta gerar uma visão mais abrangente do movimento anarquista e sua história dentro da teoria e da prática revolucionária. É por isso que o documentário “Montagem: Caso Bombas”, elaborado pelo Canal Barrial 3 do Bairro Yungay, se constitui como uma peça fundamental para a compreensão de como a repressão do movimento anarquista, assim como os procedimentos gerais dos Estados para intimidar e destruir qualquer iniciativa que ameace os valores e projetos do capital.

    É encorajada a reprodução deste material, por qualquer meio. A propriedade é um roubo; divulgue como e onde quiser.

    Para ver o documentário “Montagem: Caso Bombas”, clique aqui:

    agência de notícias anarquistas-ana

    Joaninha caminha
    no braço da menina.
    Olhar encantado.

    Renata Paccola